O tempo do não para quase tudo na vida prejudicou o desenvolvimento autônomo de muitas gerações. Tudo era tabu, nada podia, tudo proibido, tudo censurado. Tudo castigado caso o não fosse desobedecido. Principalmente a educação das mulheres foi por muito tempo pautada pelos infinitos NÃOS.

Como dizer não ao casamento arranjado? Por exemplo. Tarefa quase impossível, salvo as moças astutas que numa noite sem lua ou enluarada fugiam na garupa do cavalo mal encilhado, mas não menos ágil, daquele violeiro ou gaiteiro, o qual o pai a advertia : ” Oi Gale porqueira, não dê confiança, minha fia, esse é louco de bagaceira.” Hoje essa fala está historicizada numa canção gaúcha.

Um desses nãos, trouxe ao Brasil, minha avó materna, Quando o galo cantou pela terceira vez, a tropa de gado já havia percorrido dezenas de léguas do estado do Uruguai.Assim era denominado, o atual Uruguai. No meio da tropa, destacava se uma mula, sem mala de garupa, sem broaca ( espécie de mala feita de couro) a montaria era um vulto, que pela vestimenta, percebia-se ser de uma mulher.

Tinha quinze anos. Ela seguiu o que o coração pediu. Se encontrou a sorte de ser feliz, não sei. Mas deixou para as mulheres da família, a coragem de dizer NÃO.

Muitas de nós, vivemos o período de repressão. As diferenças de tratamento entre mulheres e homens só aumentaram. Mulher na política? Mulher artista? NÃO. NÃO PODE.

Direito de viver plenamente a sexualidade, era restrito ao homem. Para conseguir estudar, a moça encontrava mil barreiras.Um recorrente ditado nas famílias do interior: olha fulana foi estudar na cidade, logo volta com o diploma nos braços! Era uma advertência que trazia no seu implícito, o NÃO para as relações sexuais. A metáfora diploma nos braços referia-se a possibilidade de engravidar e não conseguir concluir seus estudos.Retornava para casa, grávida, solteira e por muitas vezes sem o apoio da família, seguia seu destino incerto.

Os NÃOS acompanham a vida das mulheres. Infelizmente, a sociedade machista não escuta quando proferimos que NÃO É NÃO. Parece que nossos NÃOS são ditos, mas não são escutados.

Sigamos com coragem para fugir dos nãos que nos dizem com a intenção de coibir toda forma de liberdade e igualdade. Que encontremos uma forma de fugir. E não pode ser , seguindo qualquer tropa.

 

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