Adoro a era da informação. Na minha formação inicial dependia muito do conhecimento extremamente livresco. Não raro ouvia de pessoas próximas  a mim a seguinte fala: cuidado com o que você está aprendendo, o papel aceita tudo. Era o medo do fakenews da época.

Mas porque adoro a era da informação? Porque temos acesso a quase tudo de forma rápida, em tempo real. O que se tem que aprender é checar as informações e suas fontes que é um trabalho tão igualmente rápido. Nunca na história humana o acesso a ideias e fatos foi tão simultâneo.

Para ilustrar minha reflexão, cito um exemplo de um pequeno vídeo compartilhado no Whatsap sobre a história da palavra criado-mudo.

O vídeo revela a etimologia da palavra criado mudo. Confesso, sempre desconfio de palavras, as ditas e as não ditas. Sempre desconfiei dessa.

Eis que fiquei sabendo que a expressão, ou seja, o nome dado à mesinha de cabeceira da cama, criado-mudo existe pelo fato  que na escravidão, os senhores( cidadãos de bem) escolhiam um escravo, homem ou mulher, para servi-los nos dormitórios, enquanto os seus donos dormiam, não podiam sequer se mexer para não acordá-los. O posto requeria a condição de ficarem calados, mudos..

Ouviam conversas de seus senhores, viam cenas semelhantes a filmes não recomendados a menores de dezoito anos, mas não lhes era permitido comentar com ninguém.

Ah, os segredos da alcova !!!

Passavam a ser a câmera de monitoramento da época. Alguns se pareciam com as câmeras de baixa resolutividade, não se vê nada, só vultos. Agiam como se não vissem nem ouvissem nada.

Sabedores do castigo, certamente a maioria se mantinha calado.

No entanto, sabemos da crueldade com que os escravos eram submetidos, para garantir que de fato não dessem com a língua nos dentes, a prática brutal de cortar a língua de seus criados foi se tornando natural.

Teriam, de fato, Criado Mudo. Substantivo próprio.

Com o fim da escravidão, sai de cena o Criado Mudo, substantivo próprio, e se fabrica um móvel com a função de aparar objetos ( jarra com água, copos, velas…) que o batizaram de criado-mudo. O substantivo comum.

Um móvel denominado  criado-mudo , carregado de história de preconceito e de ódio, atravessou gerações sem que houvesse questionamento para o  uso desse vocábulo.

Ainda bem que cresci numa família que o móvel perto da cama se chamava bidê.

Achava chique. Como se diz por ai ” da hora” . Mas chique mesmo é repensar a história e negar qualquer forma racista de ser. Até mesmo um vocábulo como criado-mudo.

E nós, os Criados Mudos, que deixemos de ser mudos, antes que nos cortem o direito ao grito.

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