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Ditos e Não Ditos - By Martinha de Fátima Borba
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“Eu vou ai e te charqueio.” “Ajoelha e chora “

5 de janeiro de 2026 by Marta de Fátima Borba Nenhum comentário

Charque ? No contexto brasileiro quer dizer carne seca, jabar ou carne de sol.

A técnica consiste em salgar  e empilhar ou dispor ao sol para desidratar, assim, se conserva por bastante tempo a carne bovina para consumo.

Para o preparo é necessário ferver bastante para retirar o excesso de sal.

Charquear é cortar a carne dividir em pedaços, salgar , secar ao sol e por último dessalgar em água fervente.

Buenas, quando ouço um homem gritar com uma mulher:

-Eu vou ai e te charqueio !!!!

A descrição que fiz acerca do preparo da carne de sol vem imediatamente à memória.

É isso. A mulher para esse homem merece ser cortada, salgada, fervida, queimada, secada ao sol, arrastada…mutilada…morta.

Os fatos, estatisticamente , revelam essas atrocidades praticadas pelo crime de feminicídio no Brasil.

Ah, mas é só uma expressão dita numa DR.

Ah, a letra da música não tem semântica de violência!!!

E assim o imaginário dos ditos patriarcais se perpetuam.

” agora, tu vai ver “marvada”

tava cansado de me fazer de bonzinho

te chamando de benzinho e de patroa

esta marvada me usava e me esnobava

e judiava muito de minha pessoa

endureci e resolvi bancar o machão

ai ficou bem bom agora é do meu jeito

de hoje em diante sempre que eu te chamar

acho bom você se”ajoeia”  e me trata com respeito

ajoelha e chora ajoelha e chora

quanto mais eu passo o laço, muito mais ela me adora

ajoelha e chora, oi, ajoelha e chora

quanto mais eu passo o laço, muito mais ela me adora

mas o efeito de remédio que eu dei

foi melhor do que eu pensei, ela faz o que eu quiser

me lava a roupa, lava os pratos e cuida DOS FILHOS

anda nos trilhos, garro preço essa muié

faz cafuné, me abraça com carinho

me chama de docinho, comecei a me preocupar

eu to achando que esta mulher danada

ficou mal acostumada e tá gostando de apanhar

ajoelha e chora, ajoelha e chora

quanto mais eu passo o laço mais ela me adora…

Senti náuseas ao digitar essa letra de música estilo gauchesca.

Apologia explícita à violência feminina.

Em tempos de rever discursos misóginos, essa letra e música, já passou da hora do ministério público, das delegacias de mulheres tomarem uma atitude.

A música é arte. Deve  estar a serviço do bem estar social.

Não é arte quando ratifica comportamento social violento.

O pulso ainda pulsa.

O pensamento ainda pensa.

Fica o convite, pense!!!

 

Tempo de Leitura: 2 min

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